outubro 13, 2003

Troca de ideias com um Cristão-Ibérico

Este fim de semana recebemos um email de um leitor que assina Cristão-Ibérico. O leitor começa por congratular o Resistência Islâmica;

“Desde já o congratulo pela belíssima ideia de lançar um blog sobre o islamismo em língua portuguesa.”

A dupla do Resistência Islâmica agradece as amáveis palavras e por sua vez, enaltece a elevação e o espírito crítico construtivo e aqui e ali sagaz do leitor Cristão-Ibérico (ao contrário de tantos outros emails que recebemos).
Mas vamos ao conteúdo, escreve o leitor;

“É perfeitamente um lugar-comum que os ismlâmicos sejam identificados com fanatismo e terrorismo. Por favor, peço-lhe desde já que não ponha o carro à frente dos bois e evite teclar furiosamente acusações sobre os pecados da Reconquista, as Cruzadas, a Inquisição e Israel. Não se trata de acusações mas de diálogo. É óbvio que é uma boçalidade de todo o tamanho alguém se orientar pela lógica "muçulmano = fanático afegão = terrorista". tratar-se-á de uma ideia, dir-me-á, dada pelo peso da comunicação social, mais preocupada com a cobertura (ou melhor, exposição, não concorda ?) mediática da barbárie do ser humano do que afinal o que o mesmo ser humano carrega de bom.”

Acho que dificilmente neste blog alguma vez se publicarão posts acusatórios às Cruzadas, à Inquisição ou à Reconquista (deixo Israel de fora), eu e o senhor sabemos que a História está pejada de fases bárbaras de carnificinas e desumanismos por parte de quase todos os povos. Sei que o expansionismo árabe islâmico e as hegemonias turcas não foram conseguidas com falinhas mansas. Acho que não seria sério, como diz o leitor “teclar furiosamente” sobre eventos com muitos séculos, procurando nesse argumento justificar os excessos de alguns irmãos.

A relação com os media é muito complexa... vou-lhe dar um exemplo. Não sei se viu os Jogos Olímpicos de Sydney, mas na televisão alemã, durante a cerimónia de abertura enquanto a câmara de filmar focava cada uma das nações participantes uma a uma, e enaltecia os seus recordistas, os seus feitos desportivos e mesmo culturais, sempre que filmava uma nação islâmica falava de terrorismo, guerra civil e fundamentalismo. Países diversos como a Algéria, o Sudão, a Malásia e o Paquistão foram apresentados desta forma, repito, nos Jogos Olímpico! De facto como diz o leitor há uma exposição excessiva, e quase sempre do mesmo figurino, alguém com o Corão numa mão e uma AK-47 na outra, e é esta a imagem que passa para o cidadão menos bem informado e a que ele vai reter mais facilmente.

Os estereótipos negativos não existem no vácuo, a sua repetição contínua leva há desumanização dos indivíduos (neste caso dos árabes), tornado-os menos humanos, estreitando a nossa visão do mundo e desfocando a realidade. É por exemplo tão raro vermos um família árabe no seu dia-a-dia, a porem a mesa, a levarem o cão à rua, a irem ao mercado. Mas fartamo-nos de ver o interior de campos de treino.

Ficaria surpreendido caro leitor, com a quantidade de emails que recebo e que começam por “Eu não sei praticamente nada sobre o Islão, mas....” e pelo meio aparecem sempre expressões como terrorismo, fundamentalismo, etc, sempre e sempre as mesmas questões. Pouca gente se interessa realmente por ser acordada desse desconhecimento, tive á pouco tempo uma pessoa interessada em receitas (faloudeh kermani), o que me agradou.

Mais adiante o leitor continua;

“Porém, como já o disse, não foram as acusações que me levaram a escrever-lhe. O
motivo pelo qual eu me sentei a teclar esta mensagem foi o de oferecer uma humilde contribuição para a discussão”

Já está a contribuir caro leitor e fico-lhe agradecido por isso. Só é pena não me ter dado um nome, detesto ter que o tratar por “leitor” ou por “cristão-ibérico”. É estranho como mais de 90% da correspondência que recebemos é anónima ou assinada de forma a marcar uma posição pela diferença. Fica sempre no ar a ideia de que estes títulos conferem uma dada legitimidade ou que carregam para a discussão uma saraivada de valores. Prefiro sempre que assinem com um nome, nem que seja inventado, porque para um Rui ou para um Rashid, para um Marco ou para um Muhammad, os valores humanos básicos são ou deviam ser sempre os mesmos.

“Toda a gente sabe que o fundamentalismo islâmico existe e que um número apreciável de muçulmanos encara as suas relações com o mundo cristão numa pespectiva de conflito, como se estivesse actualmente em curso uma Décima Cruzada. Eu sei que digo uma burrice, mas o próprio título que escolheu para o seu blog acaba por ser partisano, ainda que apenas superficialmente, dessa ideia de antagonismo. "Resistência Islâmica"? Diga-me sinceramente se entende que alguém hoje em dia pretende provocar o mundo muçulmano enquanto tal, ou melhor, se o mundo muçulmano é sequer uma entidade política susceptível de ser provocada enquanto tal.”

Já uma vez um outro leitor me questionou sobre o título do blog, na altura (Julho de 2003, julgo) escrevi um post algo extenso sobre o significado do título, que sendo de uma tradução em persa nada tem a ver com o conceito de Resistência, como em resistência francesa. Nada tem a ver com um grupo que resiste a algo. Mas um conceito religioso de identidade.

É necessário de uma vez por todas perceber que os Islão é uma religião universal e não uma nacionalidade. O Islão é uma religião universal com mais de 1.2 biliões de praticantes, mas estes praticantes não são uma massa unificada. Têm culturas diferentes, uma maneira de viver diferente, história diferente, cor diferente, etnicidade diferente, língua diferente, maneira de vestir diferente, mentalidade diferente, status social diferente e finalmente experiências diferentes. A única coisa que têm em comum são os cinco pilares do Islão.

Eu como exemplo, nascido no Irão, criado no Líbano, estudei em Inglaterra e estou agora a viver em Portugal, mas gostaria de ser enterrado em Karbala no Iraque.
Quem sou eu? Um iraniano? ou um libanês? Um cidadão do Mundo ou da Europa?

Em relação ao que me escreve sobre as escolas francesas e alemãs. Existem na europa dois modelos de identidade disponíveis para as minorias étnicas, o francês que é todo inclusivo, que faz com que “se vives em França, tens de assimilar a ser fancês”, com a famosa história de uma menina marroquina que foi expulsa de uma escola pública por querer usar um lenço para cobrir a cabeça. O modelo alemão que é todo exclusivo em que só se é alemão pelo sangue, uma história comum. Outros modelos caem entre o isolamento, a integração e a segregação em muito poucos casos o reconhecimento de diferenças e respeito. Para muitos muçulmanos este cenário é dramático, pois é rotulado de não querer participar em nenhum destes modelos. Mas poucos se lembraram de apresentar alternativas.


Outras passagens;
“Bem sei que Huntington via em todo o mundo, e principalmente nos dois lados do Mediterrâneo, um "Choque de Civilizações"; não será antes, pergunto-lhe, um
choque dos interesses de quem está no poder e procura utilizar a ignorância e os estereotipos de quem é governado para legitimar as suas acções? Ou realmente vê na ofensiva da
administração Bush - filho um avatar de um harmónico e unitário mundo cristão a regalar-se com a ocupação dos muçulmanos? É realmente não perceber nada do "mundo cristão", se é que ele existe.”

Não haverá por parte dos muçulmanos também uma certa incapacidade de se adaptarem ao mundo dos outros, que contribuiu grandemente para o mito totalmente falso e infundado (já que recuso identificar o inefável Khomeiny com os muçulmanos) da intolerância muçulmana. Recordo-lhe que os cristãos que vivem no mundo muçulmano têm o hábito de tirar os
sapatos quando entram nas igrejas. Fica a pergunta no ar. E é tudo. Desde já lhe agradeço a atenção dispensada se fez o obséquio de me ler, e ainda mais se publicar a carta no seu blog e me der a honra de uma resposra. Recordo-lhe que não estou a lançar acusações mas unicamente a dar uma perspectiva diferente nas relações entre cristãos e muçulmanos neste mundo conturbado em que vivemos. Afinal, para quem acredita, somos todos filhos de Abraão, pelo que deveremos ter mais em comum do que a separar-nos certamente.
Atenciosamente - cristão ibérico”


A quase todas estas questões já respondemos em vários outros post, pelo que aconselhamos a consulta nos arquivos da antiga morada, ou imploramos paciência até que tenhamos tempo de importar os arquivos para este novo site.

Publicado por resistencia em outubro 13, 2003 07:45 PM
Comentários

Sinceramente gostei deste vosso post de resposta ao "Cristão-Ibérico". Não perfilho qualquer qualquer credo religioso, mas valorizo, acima de tudo os valores humanos universais.
Penso que a visão que, a maioria de nós ocidentais, temos sobre os povos muçulmanos está viciada pela informação acrítica e ou sectária da comunicação social. Penso, também, que a visão economicista que hoje impera na nossa visão do mundo, o crescente autismo em relação ao que se passa à nossa volta, nos torna incapazes de compreender e aceitar as diferenças culturais, nos torna incapazes de destrinçar entre o que é uma luta pela sobrevivência física e pela identidade cultural (mesmo que ela se possa expressar de forma violenta, ou com um tipo de violência diferente à que utilizamos e aceitamos enquanto cultura ocidental.

Deixo uma pergunta, apenas, que aceito possa não ser respondida porque me parece do foro privado:
"Porquê enterrado em Karbala?"

Um abraço blogueiro

GIN

Afixado por: Gin em outubro 13, 2003 08:33 PM

De antologia esta resposta!

Afixado por: Rui MCB em outubro 13, 2003 09:29 PM

Sei a importância histórica de Karbala sem consultar a antologia, porque é de antologia desde que foi assassinado o neto de Maomé, no ano 680. A pergunta era dirigida ao autor do blog, porque tendo sido em Karbala que se deu a divisão mais expressiva do mundo islâmico, aparecendo a ala xiita que se opõe aos sunitas, esta sua expressão de vontade "ser enterrado em Karbala", pode ter diferentes leituras ...

GIN

Afixado por: Gin em outubro 13, 2003 09:50 PM

Ups. "De Antologia" era esta Resposta que a R.Islâmica deu ao E-mail que recebeu. Não me expliquei e a GIN foi vítima. Entretanto com o mal entendido lá aprendi alguma coisa sobre Karbala. E já agora fiquei curioso caro anfitrião, se não for, como diz a GIN, entrar demasiado no foro pessoal..
Um abraço a todos!

Afixado por: Rui MCB em outubro 13, 2003 10:09 PM

Francamente bom.
Apesar de tudo, riscos incluídos, apreciava vê-lo mais vezes a comentar a situação internacional, e com isto refiro-me mais a uma óptica dos significados do que dos factos, para que fique claro. Do mesmo modo, apreciaria ouvi-lo mais amiúde sobre temas de religiosidade. Como fazê-lo sem cair no didactismo? Não sei. É só a confissão de um gosto.
Por último, e talvez a modos que lançando o mote, fica a mais ingénua das questões: um ocidental não pode deixar de ficar espantado com o fervor religioso muçulmano, com a beleza dos cerimoniais, mas, como é vivida a dúvida entre muçulmanos (para além daquilo que seja comum ao normal dos mortais)? Outra, há já uns tempos, a propósito do problema Palestiniano e dos atentados suicidas, afirmei que 'nenhum homem vai feliz para a morte'. Tal não foi uma afirmação leviana. Sei de como os primeiros cristãos abraçaram as suas cruzes, sei de como certos povos se imolam por amor a Deus ou a uma causa,inclusive bastante recentemente, sei... É o problema do mártir e do martírio. Mas a questão mantém-se, mesmo o mártir quando sorri na morte, vai ele feliz para a morte? Gostava de ouví-lo, como muçulmano com certeza, mas sobretudo como crente.
um abraço
Carlos, ex-mors vitalis

Afixado por: carlos em outubro 13, 2003 11:42 PM

Caro GIN

Fui ao seu blog e copiei isto: "As convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras", que julgo que se pode também aplicar a muitas destas questões. Não concorda ?


Afixado por: Sameer Baz em outubro 14, 2003 12:00 PM

Caros Carlos e RuiMCB

Obrigado pelas palavras de apoio. Tentarei responder às vossas questões (Karbala e martirio) em breve. Que Allah ilumine os vossos trilhos.

Afixado por: Sameer Baz em outubro 14, 2003 12:04 PM

Amigo Sameer-Tudo o que possa contribuir para uma análise e esclarecimento da opinião publica é positivo,por isso o saúdo pelo texto.Eu,como ocidental não islamica,mas activista duma causa árabe, deverei rer imparcial,contudo essa mesma imparcialiddade,não me impede de constatar a profunda injustiça que se vive em terras da Palestina. Leia por favor as minhas crónicas "Moram numa rua escura...", "o corpo de Ahmed" e "Valeria Mendez no teatro al-Hakawathi...",e poderá saber da minha experiencia em terras palestinas. Tudo o que se diga e escreva sobre o facto é muito importante para a consciencialização do fenómeno,e para a desmistificação do assunto.O problema palestino é sobretudo um fenómeno de ingerência de estranhos no direito à soberania de um povo,e a hipocrisia americana aliada à direita de um governo como o de Sharon,são os principais culpados da situação.

Afixado por: Valeria Mendez em outubro 14, 2003 12:38 PM

Sameer Baz
"As convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras" pode ser aplicada a qualquer situação. O seu significado, para mim, é que mesmo tendo as nossas convicções, e todos as temos ou deveríamos ter, temos também que ter a capacidade de ver e respeitar outras perspectivas.
As convicções (ou as verdades) são subjectivas, são influenciadas por inúmeros factores e, por isso, pode haver tantas convicções como pessoas. Outra coisa é termos as nossas convicções e respeitarmos as dos outros ... até certo ponto, claro. Como diz Valeria Mendez, no comentário acima, não se pode respeitar uma política de agressão sistemática.

Um abraço

A GIN

Afixado por: Gin em outubro 14, 2003 10:50 PM