outubro 15, 2003

Egipto como exportador de alguns problemas

Desde que o desenvolvimento económico acelerou nos países muçulmanos, após as independências no fim da Segunda Guerra Mundial e a subida dramática do preço do petróleo nos anos 70, que os grandes centros urbanos têm-se revelado pólos de atracção para grandes números de migrantes provenientes de zonas rurais e aldeias empobrecidas, do interior destes países.

Não será de estranhar que a grande maioria se sente perdida e desenquadrada nestes ambientes cosmopolitas. As cidades tornam-se assim depósitos de massas humanas alienadas, encaixotadas em subúrbios. Uma audiência facilmente cativável e recrutável por parte de grupos revolucionários, seculares e religiosos.

Os muçulmanos fundamentalistas tentam juntar os alienados em torno do Islão, se lhes for permitido operar abertamente. Apresentam o Islão como uma religião de justiça e igualdade, caracterizando o regime político instalado como injusto, não-islâmico e corrupto. Merecendo ser derrubado ou no mínimo substituído de forma não-violenta por um regime de crentes. As tácticas para o alcance deste objectivo variam:

a) Desde a criação de células secretas, que propagam os seus ideias em mesquitas e ajuntamentos populares;
b) Desde a confrontos sangrentos com forças de autoridade;
c) Desde à participação pacifica em eleições;
d) Desde a planificação e execução de ataques terroristas;
e) Desde a subversão de instituições oficiais através da infiltração.

Normalmente grandes organizações tendem a operar abertamente e pequenas organizações tendem a operar clandestinamente. Por outro lado organizações grandes como a Irmandade Muçulmana, uma organização que goza de grande popularidade no Egipto, sempre manteve uma importante estrutura underground, mesmo enquanto foi permitido o seu funcionamento às claras. Mas independentemente do seu tamanho o objectivo deste tipo de organizações mantém-se sempre o mesmo; a instalação de um regime cujas leis fundamentais se baseiem na Sharia.

Uma das formas usadas para a instauração de um regime islâmico é a transformação do protesto social, num movimento revolucionário, usando símbolos islâmicos, linguagem islâmica e festivais religiosos. Foi isto que aconteceu no Irão, com a diferença de que lá não existia um partido islâmico como a Irmandade Muçulmana, em vez disso existia um movimento mais influente, uma orgânica de ulama Xiita, com autonomia económica e uma estrutura extensíssima. Outro caminho para a instauração de um regime islâmico passa pelo assassinato do Chefe de Estado, exemplo disso o assassinato de Muhammad Anwar Sadat no Egipto, ou a captura de um importante local religioso como a Mesquita Sagrada em Meca.

Hosni Mubarak na génese da internacionalização de alguns grupos terroristas.

No entanto a corrupção e a opressão que levaram à dissidência e à violência no Egipto e na Arábia Saudita, mantêm-se. Em vez de permitir que os moderados da Irmandade Muçulmana tivessem uma participação política activa, como foi sugerido por Clinton ao presidente Hosni Mubarak, o Egipto retomou o processo de perseguição, tribunais marciais e julgamentos sumários dos membros da Irmandade. Braços radicais da Irmandade como a Gamaat al Islamiya e a Al Jihad, foram tão reprimidos que se viram forçados a abandonar o país. Por isso enquanto Mubarak resolvia a questão do fundamentalismo no Egipto, exportava parte do problema para o exterior – ajudando assim indirectamente a Al’Qaeda que apesar de ser um interveniente relativamente novo nestas andanças, se fundiu com a Al Jihad em 1998.

Publicado por resistencia em outubro 15, 2003 02:53 PM
Comentários

Acho que poderei entender isto como uma parte da resposta à pergunta que tinha formulado noutro post.
Reconheço a minha quase nula informação sobre as diferentes organizações no mundo muçulmano e este artigo é bastante informativo. Desconhecia a existência da Irmandade Muçulmana, nem sei qual a sua perspectiva. Desconheço também o significado de Sharia.
Sem querer ser incomodativa, gostaria que pudesse falar mais sobre isso.
Abraço blogueiro

GIN

Afixado por: Gin em outubro 16, 2003 01:25 AM

Caro GIN, tentarei esclarecer numa série de post ainda não prontos. Tem de compreender o modus operandi deste blog: uma constante tradução de inglês ou árabe para português feita por Moha, a quem deixo aqui mais uma homenagem.

Afixado por: SameerBaz em outubro 16, 2003 11:24 AM

agradeço-te muito sinceramente aceitares "blogar comigo", penso que isso é complicado para ti porque, como dizes, tens que recorrer a um tradutor.
Mas a verdade é que tens sido uma fonte de informação diferente das perspectivas que tenho encontrado e, por isso, ainda mais grata estou.
Um abraço Blogueiro

A GIN

Afixado por: Gin em outubro 17, 2003 12:10 AM