outubro 22, 2003

Irão e a questão nuclear


Perguntas atiradas para o ar:

1) Ao aceitar as visitas relâmpago por parte dos inspectores o Irão está a expôr parte da sua soberania. Deixaria a Rússia que inspectores iranianos fizessem uma inspecção relâmpago à Chechénia para uma verificação das alegações de massacres lá cometidos? Permitiriam os EUA uma visita relâmpago de inspectores iranianos a Guantanamo?

2)Israel dispõe de um vasto arsenal nuclear. Não seria preferivel limparmos TODO o Médio Oriente de armas nucleares?

3)Toda esta questão das inspecções... não vimos já isto no Iraque?

4) Os EUA afirmam que o Irão, sob o ponto de vista energético não necessita de centrais nucleares, mas não foram os EUA que nos anos 70 planearam a construção de 8 centrais nucleares no Irão?

Publicado por resistencia em outubro 22, 2003 12:01 PM
Comentários

Sabe, Sameer, e permita-me que o trate assim, a evidência não tem esconderijos nem desaparece sob a sombra, infelizmente, parece fraca perante a vontade de crer...
O que acontece neste momento em Israel e no médio oriente é calamitoso, vergonhoso -- só não digo diabólico pelo cuidado que um tal conceito me exige, obrigando-me a uma extrema parcimónia. Fez-se de um problema geo-estratégico um suposto (na realidade, criado) problema religioso/ civilizacional com o fim despudorado de agrilhoar as consciências, mesmo as de boa fé, num crime colectivo.
Tamanha dessimetria no tratamento do povo judeu e do muçulmano tinha de levar a exasperações menos dignas, mas neste contexto quase compreensíveis, como recentemente, salvo o erro, as que nos surgiram vindas de terras malaias.
O problema não é -- como todos nós facilmente podemos entender --, não deve nem pode ser, sob pena de tornar a vida uma calamidade, o judeu, o muçulmano, o hindu ou o cristão. O problema é um problema de geopolítica, de uma certa política internacional que intenta a prepotência, uma vez aliviada, por auto-implosão, do seu mais próximo rival e contra-poder, a URSS.
Sem que isto revele qualquer nostalgia do bloco soviético, o que pode haver de pior, de mais perigoso, do que uma grande potência incontida?
Um país que, além do mais, arvorando-se o futuro do Ocidente e o defensor dos seus valores, junta à incontinência económica e militar um desígnio civilizacional! Sim, porque, como Fukuyama não se cansou de pregar, o fim da história já tinha acontecido, com isto referindo-se, o conselheiro de Bush pai, não à ausência de acontecimentos, mas ao fim de todo um percurso histórico que culminara na democracia liberal americana e no neo-liberalismo! O 'resto' é reenviado para um passado em pleno presente, o dos países 'ainda históricos', ou seja, os que ainda não atingiram a 'boa nova' e que haverá que 'catequizar'.
O crime é premeditado! Tempos houve, não menos exaltados em que Pablo Neruda apelou, após o assomo de Pinochet ao poder por mão americana, ao nixonicídio. Como não compreender Neruda, ainda quando a acção nos possa repugnar? Como seria se fosse connosco, aqui, com as nossas famílias no nosso país, como tanto se invoca no caso simétrico (11 de Setebro)? Como foi no Chile para Neruda? Quem 'criou' as guerrilhas e alimentou os piores ditadores na América Latina? Quem é hoje responsável pelo caos em que um após outro caem os países da América Latina? Quem suportou Saddam, os Taliban aquando da guerra com a União Soviética e, especialmente, Bin Laden? Quem levou ao poder e 'deixou' cair o xá do Irão? Quem, directa e indirectamente, mais contribuiu e continua a contribuir para o regresso dos integrismos reactivos, não apenas no próximo Oriente mas, inclusive, dentro de fronteiras? Não, isto não é dizer, como muitos nos querem fazer crer que dizemos, que a culpa afinal está do lado da vítima (11 de Setembro de 2001). Quer apenas dizer que não consigo discernir nenhuma vítima com um tal currículo de algoz! Se o 11 de Setembro foi um golpe horrendo? Foi. Mas é menos horrendo o assassínio selectivo ou indiscriminado que se tornou a política israelita? A quantos de nós, a morte de dois irmãos por uma potência ocupante não levaria, como recentemente uma jovem advogada palestiniana, de um modo ou de outro, voluntária ou involuntariamente, a situações suicidárias?
E note-se que não defendo o método, sequer a acção; do mesmo modo rejeito toda a lógica circular da vingança e do ressentimento cuja única valia é aprofundar mais e mais o fosso, só me coíbo de julgar precipitadamente as acções de desespero de quem se viu crescentemente privado de terra, de identidade... eventualmente, privado do próprio auto-respeito.
Ou de quem...
Não, ao contrário do que também vem sendo apregoado, não se trata de mais uma dessas deixas masoquistas típicas, ao que se diz, de certa esquerda ocidental, atulhada em irresolúveis problemas de má consciência histórica(Pedro Mexia, decerto di-lo-ia melhor!). Não, o problema não trata com o meu maior ou menor sossego enquanto classe média ocidental, enquanto burguês em tratos de pesadelos nocturnos. Nem trata com o passado histórico, se não como meio para uma possível melhor compreensão, mas exibe o presente. E esse presente, este nosso presente, é, tristemente, também isto, crime.
Todo o intuito de domínio, sabemo-lo, exige um bode expiatório (que associa a facilidade da identificação com o interesse no que esse grupo possa possuir ou representar). Hitler elegeu o judeu, hoje os judeus, vítimas de outrora, estão, de braço dado com Bush filho, entre aqueles que constroem o novo bode expiatório. Com as devidas proporções, o mundo tem voltas! Só o inferno parece não mudar... ou apenas de figurantes e cenário.
Terei pintado o horizonte de cores demasiado carregadas? Como amar este mundo, para os crentes obra de Deus, sem deixar sair o grito de revolta perante o mundo que construímos com o que nos foi dado?!
Peço as minhas desculpas pela extensão do comentário. O grito, espera-se, ocupa espaço e prolonga-se no tempo.

Carlos

Afixado por: carlos em outubro 22, 2003 11:57 PM

Salam Carlos

Obrigado pela sua brilhante colaboração. Isto merecia um copy/paste para a primeira página.

Afixado por: Sameer Baz em outubro 23, 2003 11:30 AM

agradeço aos dois ...

Gin

Afixado por: Gin em outubro 23, 2003 08:52 PM

Apesar de só ter achado este blog quase um ano depois da inserção dos posts, comento-o com a maior das vontades, EXCELENTE, o blog e o comentário do Carlos. Porque parou, Saleem?

Afixado por: susana gama em agosto 18, 2004 03:55 AM

Desculpe, obviamente deverá ler-se Sameer !

Afixado por: susana gama em agosto 18, 2004 03:56 AM