Aproveitando esta onda analítica respondo com bem mais de um mês de atraso a um jovem estudante de Relações Internacionais e amável leitor, chamado Luís Carvalhosa que pergunta:
[...] Gostaria se possível de ler a sua análise sobre a coabitação entre os EUA e os Talibãs, antes dos atentados do 11 de Setembro, uma vez que julgo que numa fase inicial os EUA nunca condenaram o tratamento dado às mulheres. Tendo apenas apregoado esse refrão quando dos ataques ao Afeganistão.
Antes de mais espero que essa sua pergunta não fizesse parte de um trabalho para casa passado pelo professor, pois se assim for, dado o tardar da minha resposta, já vai tarde e a más horas. Estou a brincar caro Luís.

O processo de ascensão ao poder por parte do movimento talibã é complexo, mas culminou com a tomada de Cabul e com a prisão dentro do compound das Nações Unidas do Presidente Muhammad Najibullah e do seu irmão Shahpur Almadzai.
Najibullah foi castrado e arrastado por jipes pela cidade fora, antes de ter sido baleado na cabeça e pendurado pelo pescoço, ao lado do cadáver do seu irmão numa das praças principais de Cabul. Depois deste acto brutal a cúpula talibã emitiu sentenças de morte a Dostum, Rabbani e Massoud, mas não a Hikmatyar que também era de etnia Pastun.
Após a tomada do poder a Rádio Sharia emite um longo comunicado onde proíbe:
1. A posse de armas
2. O trabalho fora de casa por parte das mulheres
3. A presença fora de casa de uma mulher quando não acompanhada por um parente do sexo masculino.
4. Que os homens façam a barba
5. Que os homens não usem um turbante
6. Que as mulheres usem no exterior outra coisa que não uma burqa
7. A exposição de fotos de animais ou pessoas
8. A audição de música
9. Que se assobie
10. Que se tirem fotografias ou se façam videos.
Hamid Karzai congratula os Talibã
Através do desarme dos civis o novo regime trouxe alguma acalmia e tranquilidade a Cabul onde 50.000 civis tinham morrido fruto de uma longa guerra civil e uma total anarquia social ao velho estilo Far West, em que o mais rápido com a AK-47, era quem tinha sempre razão. Esta nova condição fez com que o actual Presidente do Afeganistão Hamid Karzai desse publicamente o seu apoio a esta nova facção.
Esta vitória dramática das milícias talibã, não caiu bem no meu País, nem na Rússia e para dizer a verdade, não caiu bem em nenhum país da Ásia Central. Pelo contrário o Paquistão rejubilou por ter contrariado os planos de Teerão e por ter conseguido levar os seus protegidos ao poder, mas isto já era o esperado. O que não era esperado era a reacção de Washington.
Washington dá luz verde aos Talibã
Ao invés de ter feito soar o alarme pela subida ao poder da milícia islâmica mais fundamentalista, os EUA afirmaram através do porta-voz do Departamento de Estado Glyn Davies, que “não havia nada de objectável às políticas domésticas praticadas pelos talibã”, isto foi afirmado no Middle East International de Outubro de 1996 e é facilmente verificável.
Ironicamente por todo o Irão os clericos iranianos foram rápidos a condenarem principalmente a proibição das mulheres afegãs em terem direito a ir à escola, descrevendo esta e outras práticas como não-islâmicas. Os EUA mantiveram o silêncio.
A falta de uma verdadeira política afegã para o período pós-Najibullah, levou os EUA a seguirem e guiarem-se um pouco pela política paquistanesa, que dava ênfase à hostilidade talibã para com a Rússia, que tentava exercer de novo alguma influência no Afeganistão, e para as vantagens que um “forte e honesto” regime talibã no Afeganistão poderia fazer em relação ao cultivo de papoilas que tinha atingido as 3000 toneladas, o que consistia metade da produção mundial de heroína, que em grande maioria tinha os EUA como destino.
Vantagens Económicas e Iranofobia
Outra vantagem para “todos” ou “alguns”, era o plano de construção de um pipeline de gás natural do Paquistão para o Turquemenistão, com passagem pelo Afeganistão. Um negócio em que a Unocal, uma das maiores empresas petrolíferas americanas estava interessada. “ Nós vemos a subida ao poder dos talibã, como uma coisa muito positiva”, disse Chris Taggart Vice-Presidente da Unocal (no Observer de Agosto de 98).
Tudo isto apimentado por uma iranofobia que caracteriza o regime americano, fez com que Washington pressionasse o governo do Turquemenistão a aceitar que o pipeline passasse pelo Paquistão e não pelo Irão e pela Turquia.
As doutrinas fundamentalistas e desumanas defendidas pelos talibã, levaram a uma clara divisão geoestratégica na região. Irão, Turquia, Rússia e Ásia Central por um lado, Paquistão e Arábia Saúdita do outro, com os americanos a pescar dividendos desta fractura.
Bin Laden influencia Mullah Omar
Em Outubro do ano em que os Talibã chegaram ao poder, Mullah Omar convoca Usama Bin Laden, para averiguar da sua lealdade, uma vez que durante a guerra civil Bin Laden foi um apoiante de Hikmatyar e não de Yunus Khalis o favorito de Mullah Omar. Bin Laden reconhece Omar como o Comandante dos Fiéis e Omar promete protecção a Bin Laden. Pouco depois deste encontro Bin Laden dá a sua primeira entrevista televisiva a um jornalista do Al-Quds al Arabi.
Durante a entrevista Abdel Atwan, o jornalista do Al-Quds testemunha a organização e poderio da organização de Bin Laden, que durante a entrevista brandiu documentos atestando a promessa governamental saudita à organização no valor de 400 milhões de Euros, que é o dobro do valor em ajuda que a União Europeia vai actualmente doar para a reconstrução do Iraque.
Com chegada a Peshawar no Paquistão de uma equipa de assassinos da CIA, Bin Laden muda de Quartel-General e refugia-se nos confins de Kandahar. Onde passa a privar quase todas as noites com Mullah Omar com quem tem longas conversas. Lentamente e sob a influência retória de Bin Laden, Mullah Omar começa a virar-se contra os americanos e contra o Ocidente.
(Caro Luís continuarei para a semana)
Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe os elogios feitos à minha no versão do Geopolítica.
Em segundo lugar, venho abordar o tema do apoio americano aos taliban, motivado por razões geopolíticas.
O Afeganistão é de fulcral importância para os EUA, pois constitui um ponto de passagem para os oleodutos e gasodutos provenientes da Ásia Central que depois vão abastecer o Ocidente.
O objectivo nº 1 dos americanos sempre foi que estes pipelines passassem ao lugar do Irão e da Rússia, interessando-lhes também que o Afeganistão como ponto de passagem se tornasse estável, daí o seu apoio aos taliban.
Para Washington os estudantes de teologia, apesar de serem relativamente desconhecidos, davam maior garantias de estabilidade no país, tendo um forte apoio da população, farta das guerras entre as diferentes facções que anteriormente "desgovenavam o país".
Durante anos houve uma espécie de pacto silencioso entre os taliban e os americanos por motivo de interesse recíproco: os EUA abstíam-se de criticar as duras políticas fundamentalistas em troca de salvo-conduto para os megalómanos projectos de transporte de matérias-primas provenientes da Ásia Central.
Sobre o resto vou guardar para um post no meu blog.
Abraços,
Nuno
O resto só vou publicar para a semana. Vou estar em Lisboa este fim-de-semana e, além disso, preciso de fazer alguma pesquisa para fundamentar a análise.
Quanto à "prosa" sobre as mudanças geopolíticas ocorridas após a desintegração da URSS está um pouco em "águas de bacalhau". Quanto tiver algum tempo disponível volto a esse assunto.
Um abraço,
Nuno
Deixo aqui esta referência por me parecer interessante.
Mértola - A Associação para o Ensino Bento de Jesus Caraça, em Mértola, está a preparar a elaboração de duas «maletas pedagógicas» dedicadas à herança e cultura islâmicas. Na última reunião ordinária, a Câmara Municipal aprovou, por unanimidade, suportar a totalidade dos custos dos materiais que irão integrar estas maletas.
Fornecer aos alunos e professores do primeiro e segundo ciclos do concelho «um conjunto de informações organizadas, actividades lúdicas e pedagógicas que favoreçam o respeito e o conhecimento da cultura» são os principais objectivos deste projecto, de acordo com uma nota distribuída à imprensa.
As duas maletas irão conter um conjunto de materiais diversificados, nomeadamente CD-ROM, caderno teórico, acessórios de vestuário completo para as actividades pedagógicas, jogos, acessórios de casa, entre muitos outros.
Este projecto, para além de uma equipa de técnicos nas diferentes áreas, contará com a participação efectiva dos alunos do terceiro ano do curso de Museografia Arqueológica. O projecto vai custar 8.250 euros, pagos em duas tranches.
http://www.jornaldigital.com/noticias.php/1/9/11/16387/
Abraço
GIN
Afixado por: Gin em outubro 26, 2003 11:59 AMGostaria de te colocar uma questão que não entendo as implicações.
Li na revista Visão nº557 que no Afeganistão a proposta de Constituição, que vai ser discutida na Loya Jirga, embora diga que "nenhuma lei pode contrariar a sagrada religião do Islão" e que preconiza a criação de uma República Islãmica, com um sistema presidencial e direitos iguais para todos", não faz qualquer referência à aplicação da Charia.
Podes explicar-me o significado desta opção?
GIN
Afixado por: GIN em novembro 10, 2003 12:40 PMSou brasileiro e tenho muito interesse em história e geopolítica.
Tenho especial interesse pelo Oriente Médio e Ásia Central e gostaria que se possível, me fosse enviado artigos, matérias que tratem dessa região.
Atenciosamente,
Vander Bras
vander.bras@bol.com.br
Gostava de exibir a vossa maleta na minha escola
Professor na EB2 Pêro da Covilhã
naum sabia nada sobre a história dos talibã, mas vivendo e aprendendo, achava eu que os mocinhos eram os talibã e os E.U.A com todo aquele poderio em busca de poços de petróleo queriam tomar os paises arabes.. abrigado por mais esses conhecimento.
Afixado por: Marcio Gomes em setembro 10, 2004 01:20 PM